sexta-feira, 24 de setembro de 2010

DENTRO E FORA DOS ESPELHOS

ARTIGO PUBLICADO NO ANOTÍCIA

Dentro e fora dos espelhos, por Claudia Regina Pereira Belli*

O tema espelho é provocativo, invoca indagações existenciais e evoca outras faces, as chamadas máscaras, criadas e recriadas pelo senso comum, para sobrevivência de cada indivíduo nas sociedades. O espelho pode refletir o que há de secreto em cada indivíduo, pode projetar uma imagem pronta, de fora para dentro, ou uma imagem obscura de dentro para fora. Pode ser também uma superfície muito lisa e com alto índice de reflexão de luz.

Ao projetar a imagem no espelho, pode-se proporcionar a experiência de autoconhecimento para a descoberta do eu. Nesse caso, é relevante levar em consideração o ensaio “Espelho, Espelhos”, de Sérgio Telles, no qual se questiona a existência, o reencontro com o próprio eu. Relata questões referentes à psicanálise, é construído um diálogo entre a psicanálise; e o conto “Espelho”, de Guimarães Rosa, desnuda o fato de a literatura trazer à tona situações cotidianas e existencialistas. O autor fala com o leitor como um espelhamento, o analista é o espelho para o analisando, um processo de construção de identidades, de constituição do sujeito que está escondido por detrás de algo.

Há exemplo de espelhos em 2 Coríntios 3:18, quando o apóstolo Paulo cita: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelhos, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. O fato de a face estar sendo desvendada dilui a essência do seu olhar para dentro de si. O espelho, além de ser um objeto que denota, expõe e propicia enxergarmos a própria imagem, pode nortear também reflexões sobre os eus.

Isso acontece também por meio da arte poética, que pode conceder ao homem uma essência de vida e de movimentos. A poesia é a linguagem da imaginação e do coração, de representar os objetos e seres, não como são propriamente, mas sim como são modelados por outros pensamentos, numa infinita variedade de formas e conteúdos de intimidades, no qual a poesia liga a natureza a si própria.

Cada sujeito, ao ler um poema, transforma-se. A mudança de percepção pode se dar por meio de uma confissão sem máscaras, sem medos e com rupturas, pela imagem refletida no espelho por diferentes ângulos ou pela descoberta do eu interior. O poeta Octavio Paz afirma que “a poesia nasce da antiga crença mágica na identidade entre a palavra e aquilo que a palavra nomeia”. O olhar sobre a questão poética ocorre por meio de princípios que dizem respeito ao desenvolvimento de uma reflexão social e necessária para a humanidade.

O tempo atrai situações inesperadas, é a magia repentina das coisas, é o mágico das armadilhas; não está somente no relógio, está nas fases do espelho da vida; não se transforma em uma estátua, é a lembrança e a espera de algo, o tempo reflete o passado no presente.

Quem tem medo de espelhos? Sempre vai depender da perspectiva do eu, ou do que realmente se pretende ver em cada espelho quando a janela se abre. A última indagação questiona quais são as perspectivas da imagem refletida pelo espelho. Será a aparência, a essência, o tempo e/ou a memória?

*Professora universitária e mestranda do Programa em Patrimônio Cultural e Sociedade da Univille.

http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2753539.xml&template=4187.dwt&edition=13745§ion=882

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